quinta-feira, 18 de outubro de 2007

PASSARINHO - by Timóteo Sampaio

Sentei me na escada pra te ver
E fiquei estatuado ao te admirar
Como pode tão pequeno ser, tão fragil vida
Tão belo canto ter?

Como me alegro te ouvir, passarinho
Mesmo encarcerado,
Não desanima, não pára, agradece pelo belo dia
Faz o que eu ainda não fiz
E embalado de tão linda melodia

Nunca tiveste um mestre de canto
Ainda assim voce jamais desafina
Atinge qualquer nota proposta
Cantando em fusas, colcheias quiálteras e sextinas

andam dizendo, passarinho
que voce é o fruto de um acaso

Mas eles não sabem responder, passarinho
Quem foi que te criou
Falam cada asneira, cada bobeira
Que se tu entendeste, certamente choraria
E de tão triste desabafo, faria outra bela melodia

Ah se eles te ouvissem, passarinho
Gostaria de ver, e admirar
Quando embalado de uma Bossa
Desse e eles a resposta
Quem te ensinou a cantar...



Timoteo Sampaio
timoteosampaio@hotmail.com

MINEIROS - by Timóteo Sampaio

- Mais num é boa aquela música cumpadi?
- A qual ocê si referi?
- Aquela assim...como é mesmo?
- A letra dela fala mais ou menos assim...
- Nossa, como é mesmo?
- Puxa, essa música todo dia toca naquela radia...como é mesmo o nome dela?
- Aquela que tem um homi que fala assim...
- Cê num sabe não cumpadi?
- Me diz quem canta a música homi, quem sabe eu me alembre?
- São aqueles meninos, sô...
- Aqueles que eram pobre veio de Goiania e hoje são tudo famoso?
- Ah, sim...qual deles?
- Tem os...como se chamam mesmo?
- Não, num deve de ser esses.
- Puxa, a letra fala de uma muié, que vai embora e o rapaiz fica apaxonado.
- Ah sim, lembro, quem canta são os...ah não nessa o rapaiz fica com dor de cutuvelo, num deve di sê.
- Dá mais uma dica cumpadi.
- Olha, a música começa com um toque de viola...
- Lembrô?
- inda não, mas continua.
- Primeiro só um começa cantando, depois entra o segundo.
- Hum...ainda num dá pra sabê.
- São aqueles mininos sô, que sempre usam umas calça apertadinha, parece que as coisa vão explodir, com umas camisa pra dentro, cinto grande e um chapelão.
- Num lembrô?
- Inda não homi.
- Passô esses dia num programa de televisão, eles com aquele apresentadô, sabe qual é? Que fica todo domingo falando com os artista.
- Puxa...as veis me vem o nome mas num cunsigo alembrar.
- Võ sofejá um pedacinho dela e ve si ocê alembra.
- Trá lá lí lá...
- Lembrô?
- Uai cumpadi, isso num é música internacionar?
- É sô, parece que os gringo gostô dessa música, e fizeram uma versão em ingrêis sô.
- Mais quis cabra mais sem vergonha heim cumpadi? ouviu nossa música aqui depois passa pruma língua que nóis num intendi e sai tocando na radia pra nois ouvi.
- Pois é. Mais e aí, alembrô?
- Inda não rapaiz.
- Ah, mais uma dica. Na capa dos disco aparece sempre um do lado do outro, numa fazerndona, com uns boisão no fundo...
- Alembrô?
- Rapaiz...
- Disisto cumpadi, vamo entrá e eu coloco o disco pra nois ouvi.


Timóteo Sampaio
timoteosampaio@hotmail.com

DOR DE BARRIGA - by Timóteo Sampaio

Sábado à noite, e está tudo lindo, tomei um banho e me vesti bem, pois era dia de namorar.
- Menino, come alguma coisa antes de sair, nunca se sabe, disse minha mãe.
Resolvi obedecer e fui a mesa. Uma baita vitamina de abacate acabada de ser servida.
- hum, ótimo adoro isso. Tres copos de uma vez, parecia que era a mais gostosa que
eu já havia bebido. Pronto pra sair quando meu irmão me aparece com um baita pão com ovo. Vitamina de abacate, mais pão com ovo? – ah, se não matar engorda.
Sai correndo pois ouvi o barulho do onibus descendo a rua, foi a conta de descer correndo os morros do bairro e pular pra dentro do busão.
Desce morro sobe morro, curva a direita curva a esquerda, passa quebra-mola a mil por hora, devia ser a ultima corrida e o motorista já estava louco pra chegar em casa também. Senti numa das curvas que dentro da barriga tudo revirava, causando uma mistura homogenia. Abacate, pão, ovo...
Não demorou muito e o sinal de alerta mandou avisar: - 5 minutos, era o tempo maximo que eu teria para ter uma vida de rei.
- Meu Deus! Trono a vista...
Comecei minha matematica dentro do onibus mesmo. no minimo mais 7 minutos
Para chegar no meu ponto, mais uns 15 a pé até a casa da namorada, mais uns 5 para cumprimentar todo mundo e dar uma desculpa para entrar no banheiro. 7+15+5 = desespero!!! Enquanto fazia minha continha, uma simpática gota de suor me desceu a fronte.
Pensava em toda as possibilidades que tinha, e a mais obvia foi: descer um ponto antes e orar a Deus para que conseguisse um banheirinho qualquer.
Coloquei em prática minha ideia. Puxei a cordinha do onibus, e nem reparei que ela ficou na minha mão. Pronto! bar a vista. Enquanto me dirijia ao bar pensei ( ainda estava conseguindo pensar ) em uma boa desculpa para pedir o banheiro.
- Moço, cê tem coca?
- Tudo bem, pode ser Picolino mesmo.
- Aí, posso usar seu banheiro?
Nem vi a hora que entrei no banheiro e percebi que só havia um mictoriozinho. Amaldiçoei aquele lugar.
Fingi naturalidade, agradeci ( xinguei em pensamento ) o dono do bar e sai. O picolino virou um meteorito ladeira abaixo.
O desespero continuou, mas uma luz raiou; o hospital da cidade. Ficava a uns 10 minutos a pé, e uns 3 correndo.
Engatei quinta e perna pra que te quero. Estava me sentindo o Barrichello enquanto o cabelo despenteava, a camisa saia amarrotada pra fora da calça e o desodorante vencia, quando vi uma cena que outrora me sentiria honrado mas naquele momento era um baita problema: meu pastor! Ele abriu um sorriso levantou a mão, e eu passei por ele a trezentos kilometros por hora com um sorriso amarelo e gritei: - passssssenhoooooor...
Dele eu ouvi apenas a paz do.., o senhor não deu pra ouvir pois já estava a alguns metros e havia dobrado a esquina. Depois eu explico.
A dor aumentou, e meu sistema de alerta me dizia, que se não resolvesse o problema em segundos, minha roupa debaixo mudaria de cor.
Assim como um oásis no deserto vejo o mais lindo luminario da minha vida: “Hospital São José”. Não sei quem foi são José, mas se não fosse evangélico com certeza seria devoto dele a partir daquele dia.
Passei a mão no cabelo, coloquei a camisa pra dentro da calça, enxuguei o suor com a manga da camisa, desembaçei os oculos e entrei no hospital.
Hoje fico tentando imaginar a minha cara. As coisas me avisando: - estou indo, estou indo, e eu interpretando uma naturalidade invejável a qualquer ator de Hollyood, digno de oscar. Cheguei a recepcionista, esperei ela terminar uma ligação de 10 segundo que pareceu dez horas e dei um “agradável” boa noite, onde fica o banheiro? No final do corredor? Ok, obrigado. Um corredorzinho de 5 metros, ou cinquenta kilometros estava a minha frente. Corredor cheio, eu querendo sair correndo a mil por hora ali, mas era um hospital tinha que ir passo a passo lentamente. Depois de 2 segundos ( ou duas horas no meu pensamento ) cheguei a uma portinha com uma placa escrita cavalheiros, mas acho que se tivesse escrito damas, criança, velhos, sei lá oque, eu teria entrado do mesmo jeito. Entrei, tranquei a porta, ou não tranquei? Pronto agora eu era o rei do mundo. Naquele momento o sol parou, ( do outro lado lá no Japão mas parou ) borboletas e fadas se misturavam voando ao meu redor, coelhinhos saltitavam e passaros cantavam. Naquele momento o Senna era Tri, o Brasil era penta e a poupança... bem a “poupança" não estava muito bem.
20 minutos depois...
Depois de respirar, gastar a metade do papel toalha enxugando o rosto, coloquei a camisa pra dentro e sai de dentro daquele pequeno comodo do qual eu jamais me esquecerei.
Contemplei a lua, nunca a tinha visto tão grande, e nem sabia que havia tantas estrelas no céu. Subi o morro todo bem devagar e respirando lentamente aquela brisa.
Cheguei toquei a campainha. Ela me olhou e não entendeu a roupa amarrotada, o cabelo pra cima, a calça torta, a mão molhada e um belo sorriso no rosto.
- Boa noite meu bem.
- Boa, muuuito boa.


Timóteo Sampaio
timoteosampaio@hotmail.com

O SANTO - by Timóteo Sampaio

Terezinha vinha do rio, bacia de roupas se equilibrando na cabeça, a saia comprida e os pés no chão. Fadiga para chegar rápido em casa e ainda fazer o almoço para os quatro filhos e o marido que chegaria da roça. Devota desde criança, colecionava santos de todos os tipos. Um para a saúde das crianças outro para a do marido, um para ficar pendurado no pescoço como proteção, outro na porta da casa contra ladrão. Até pra se uma das galinhas parasse de botar tinha um santinho.
Vinha pensando na vida quando sentiu os pés descalsos e úmidos do rio pisar em algo volumoso e frio. Abaixou-se colocou a trouxa no chão e pegou aquilo que pareceu ser uma estátua.
- Um santo! Exclamou.
Mas a figura não tinha um rosto ou um corpo definido. Estivera ali há anos, talves decadas, ou quem sabe os colonos quando por ali passaram não o perderam.
- Vou levar ao padre no domingo, quem sabe não é um bom santo e um bom sinal. Colocou no bolso do vestido e saiu rumo a casa.
No meio do caminho ainda pensando em quem seria aquele santo, resolveu passar no terreiro de nhá Benta, afinal ela tinha tantos santos, quem sabe não conhecia aquele.
- Dia nhá Benta
- Dia minha fia, veio se benzer?
- Não, vim trazer um santo pra ver se a senhora sabe quem é.
Tirou o santo do bolso e colocou na mão da negra Benta que olhou, analizou, coçou o queixo e a cabeça, virou-o de um lado para o outro e disse: - olha minha fia, tá parecendo um dos orixás, mas não sei identificar qual. Se pelo menos o rosto estivesse claro.
Terezinha pegou o santo deu um “brigado” colocou-o no bolso outra vez, virou-se fez o sinal da cruz e pensou consigo mesmo: Orixá? Ave cruz-credo!
Saiu dali como se tivesse visto o próprio tinhoso, pensou em jogá-lo no córrego mas não teve coragem. E se não for? No domingo o padre me fala.
Quebrou a ladeira, e lá vinda a comadre Aparecida. Ela também é devota esntende muito de santo, quem sabe ela não vai conhecer.
- Dia comadre.
- Dia.
- como tá o rio lá embaixo?
- Bem limpo e tranquilo, deu pra lavar a roupa todinha bem rápido.
- Até achei um santinho, mas não conheço ele, vê se você já
viu esse comadre. A Benta diz que é orixá, mas valha minha santa Terezinha disso. A Cida deu uma olhada, esfregou os olhos, desembaçou o óculos e os pendurou na ponta do nariz.
- Parece são Francisco, mas não há sinal de ser careca. Se
tivesse um menino poderia ser Santo Antonio, mas tá muito gordinho pra ser qualquer um dos dois. É comadre, domingo o padre descobre. Desceu a ladeira e se foi rumo a casa.
Quase chegando em casa lembrou de seu Zé. Dizem que ele não é católico, nem é da igreja de aleluia, mas tem a sua fé. Quem sabe ele não entende de santo.
Depois de longo dialogo, e de varias baforadas do seu Zé, passando pra lá e pra cá o tal santo, falou que gordinho e baixinho só podeia ser um tal de Buda.
- Buda, minha nossa senhora? Nunca ouvi dalar nesse santo. Que milagre será que ele faz, e pra que causa ele atende? Vou deixar para que o padre me esclareça no domingo.
No determinado domingo Terezinha acorda bem cedo e vai rumo à igreja, terço numa mão sacolinha na outra e o dito santo dentro. Rezou a novena fez promessa e o nome do Pai. Quando todos estavam a sair, correu na contra mão das pessoas para chegar junto ao padre.
- Padre João! Chamou ela. – padre João, presciso falar com o senhor.
- Sente minha filha, abra seu coração e não esconda nada, se quiser podemos ir ao confessório.
- Não seu padre, não será necessário, só quero te mostrar um santinho que achei quando vinha do rio. A nhá Benta diz que é um orixá. comadre Cida diz que pode ser São Franciso e seu Zé diz que é um tal de Buda. Fico com medo de pedir pro santo errado e minhas preces não serem atendidas. O senhor sabe que santo é esse?
O padre deu uma olhada naquela pequena figura, virou olhou analizou e lhe disse:
- Cara irmã Terezinha, isso é só uma carranca, despediu e com um sorriso atendeu uma jovem devota que lhe esperava.
- Terezinha colocou o santinho dentro da sacola e voltou satisfeita pra casa. Colocou a estátua entre as outra olhou alegre e saiu pro quintal.
- Agora é só descobrir a causa, e rezar pra São Carranca.




Timóteo Sampaio
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